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Narcisismo e golpes em aplicativos de relacionamento: quando a sedução vira prejuízo financeiro

Aplicativos de relacionamento podem ser usados por pessoas que criam vínculos afetivos rápidos para obter vantagem financeira.

Publicado em 05 de julho de 2026

Aplicativos de relacionamento podem ser usados por pessoas que criam vínculos afetivos rápidos para obter vantagem financeira.

Aplicativos de relacionamento podem aproximar pessoas que realmente querem viver uma história. Mas também podem ser usados por golpistas que sabem explorar carência, confiança, desejo de recomeço e vulnerabilidade emocional.

Em muitos casos, o golpe não começa com um pedido de dinheiro.

Começa com sedução.

A pessoa parece perfeita. Demonstra interesse rápido, faz elogios intensos, fala sobre futuro, cria intimidade em pouco tempo e transmite a sensação de que aquele encontro foi diferente de todos os outros.

Depois, aos poucos, surgem as urgências, os problemas financeiros, os pedidos de Pix, as promessas de devolução e as justificativas que nunca se confirmam.

Quando a vítima percebe, já não está apenas envolvida emocionalmente. Está também financeiramente prejudicada.

O que o narcisismo tem a ver com golpes afetivos?

Antes de tudo, é importante fazer uma diferença: nem toda pessoa manipuladora tem transtorno de personalidade narcisista, e nem toda pessoa com traços narcisistas pratica golpes.

O diagnóstico de um transtorno de personalidade deve ser feito por profissional habilitado, com avaliação clínica adequada.

Ainda assim, o DSM-5-TR ajuda a entender alguns padrões. Ele descreve o transtorno de personalidade narcisista como um padrão persistente de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia, presente em diferentes contextos da vida da pessoa. Entre os traços associados, aparecem comportamentos como sensação de superioridade, exploração interpessoal, senso de merecimento e dificuldade de reconhecer as necessidades do outro.

No contexto dos golpes em aplicativos de relacionamento, o ponto principal não é tentar “provar que alguém é narcisista”.

O ponto principal é observar o comportamento.

Houve mentira?

Houve manipulação emocional?

Houve promessa falsa?

Houve pedido de dinheiro?

Houve vantagem econômica?

Houve prejuízo para a vítima?

Essas perguntas importam muito mais juridicamente do que o rótulo psicológico.

Como o golpe começa nos aplicativos de relacionamento?

Muitas vítimas relatam um começo intenso.

A pessoa aparece carinhosa, disponível, interessada e segura. Em pouco tempo, fala sobre conexão rara, destino, casamento, mudança de vida, viagem, sociedade, filhos ou futuro juntos.

Esse excesso de intensidade pode fazer a vítima baixar a guarda.

Depois dessa fase de encantamento, surge o primeiro pedido.

Pode ser dinheiro para uma emergência, passagem, doença na família, desbloqueio de conta, investimento, dívida, problema profissional ou oportunidade que “não pode esperar”.

A vítima ajuda porque acredita que está ajudando alguém com quem criou vínculo.

E é exatamente aí que o golpe se mistura com afeto.

Por que a vítima demora a perceber?

Porque a vítima não está lidando apenas com números, transferências e comprovantes.

Ela está lidando com sentimento.

O golpista pode ter criado uma relação de confiança antes de pedir qualquer valor. Pode ter feito promessas de amor, de pagamento, de casamento ou de vida em comum.

Por isso, quando surgem os primeiros sinais estranhos, a vítima tenta justificar.

“Ele está passando por uma fase difícil.”

“Ele vai me pagar depois.”

“Ele só precisa resolver esse problema.”

“Se eu não ajudar, vou parecer egoísta.”

“Talvez eu esteja desconfiando demais.”

A manipulação emocional faz a pessoa duvidar do próprio julgamento.

Quando existem traços de grandiosidade, sedução, vitimização, exploração e falta de empatia, o envolvimento pode se tornar ainda mais confuso. A vítima não sabe se está diante de alguém problemático, de alguém em crise ou de alguém que sempre teve intenção de obter vantagem.

Sinais de alerta em relacionamentos por aplicativo

Alguns sinais merecem atenção, principalmente quando aparecem juntos.

A pessoa acelera a intimidade logo no começo.

Fala em amor, casamento ou futuro com muita rapidez.

Conta histórias grandiosas sobre sucesso, dinheiro, profissão ou status.

Evita encontros seguros ou chamadas de vídeo.

Pede segredo sobre a relação.

Diz que ninguém entenderia o amor de vocês.

Cria urgências financeiras.

Pede Pix, empréstimo, cartão, compra ou pagamento de dívida.

Promete devolver, mas nunca formaliza nada.

Muda a versão da história quando é questionada.

Faz a vítima sentir culpa por desconfiar.

Chama a vítima de interesseira quando ela cobra.

Some depois de receber dinheiro.

Volta quando percebe que a vítima quer se afastar.

Um sinal isolado não prova golpe. Mas um conjunto de sinais pode revelar um padrão de manipulação afetiva e financeira.

Onde entra a parte jurídica?

Quando uma pessoa usa uma relação afetiva para obter vantagem financeira, pode haver discussão jurídica sobre estelionato sentimental, reparação por danos materiais, danos morais e outras medidas, dependendo das provas e do contexto.

É importante entender uma coisa: o Direito não indeniza simplesmente porque uma relação terminou mal.

Frustração amorosa, por si só, não costuma ser suficiente.

O problema muda quando existe fraude, manipulação, abuso de confiança, promessa falsa, exploração emocional e prejuízo econômico.

Nesses casos, a análise jurídica busca entender se a vítima entregou dinheiro, bens ou vantagens porque foi induzida a acreditar em uma história falsa ou em uma promessa usada para explorá-la.

E se também houver violência psicológica?

Em alguns casos, o golpe afetivo pode vir acompanhado de violência psicológica, perseguição, ameaça, controle financeiro ou violência patrimonial.

A Lei Maria da Penha cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher e reconhece diferentes formas de violência, incluindo violência psicológica, moral e patrimonial, quando presentes os requisitos legais do caso.

Além disso, a Lei nº 14.188/2021 criou o tipo penal de violência psicológica contra a mulher, o que reforça a importância de observar condutas que causem dano emocional, controle, limitação ou prejuízo à autodeterminação da vítima.

Também é importante lembrar que a Lei nº 14.132/2021 inseriu no Código Penal o crime de perseguição, conhecido como stalking, quando há perseguição reiterada que ameaça a integridade física ou psicológica, restringe locomoção ou invade/perturba a liberdade ou privacidade da vítima.

Isso pode ser relevante quando o golpista não apenas pede dinheiro, mas também ameaça, persegue, humilha, manipula, expõe, controla ou tenta impedir que a vítima busque ajuda.

Cada caso precisa ser analisado de forma individual.

O que a vítima deve guardar como prova?

Em casos envolvendo aplicativos de relacionamento, narcisismo, manipulação e prejuízo financeiro, a organização das provas é essencial.

Podem ser importantes:

  • prints do perfil no aplicativo;
  • conversas dentro do aplicativo;
  • mensagens de WhatsApp;
  • áudios;
  • e-mails;
  • comprovantes de Pix;
  • transferências bancárias;
  • faturas de cartão;
  • contratos ou empréstimos feitos por causa da pessoa;
  • promessas de pagamento;
  • mensagens com pedidos de dinheiro;
  • prints de declarações de amor e promessas de futuro;
  • provas de mentiras descobertas depois;
  • nomes de testemunhas;
  • datas dos principais acontecimentos.

Também é recomendável montar uma linha do tempo.

Essa linha do tempo pode mostrar quando vocês se conheceram, como a confiança foi construída, quando começaram os pedidos de dinheiro, quais promessas foram feitas, quais valores foram entregues e quando a vítima percebeu que poderia ter sido enganada.

Cuidado: não apague as conversas por vergonha

Muitas vítimas sentem vergonha depois que percebem o golpe.

Essa vergonha faz com que algumas apaguem conversas, bloqueiem perfis sem salvar provas ou deixem de contar a história para alguém de confiança.

Mas apagar tudo pode dificultar a análise do caso.

Antes de excluir mensagens, trocar de celular ou bloquear a pessoa, é importante preservar o que for possível de forma segura.

A vergonha é compreensível. Mas ela não deve proteger quem manipulou a confiança da vítima.

A pergunta principal não é “ele era narcisista?”

A pergunta mais importante é:

Ele usou o afeto para obter vantagem financeira?

Do ponto de vista jurídico, o foco deve estar nos fatos.

O comportamento da pessoa pode até revelar traços narcisistas, como grandiosidade, necessidade de admiração, sedução, exploração e falta de empatia. Mas a ação jurídica depende de provas concretas.

Por isso, a vítima deve evitar construir o caso apenas em torno de um diagnóstico.

O melhor caminho é demonstrar:

o que foi prometido;

o que foi pedido;

o que foi pago;

quais mentiras foram contadas;

qual prejuízo foi causado;

como a manipulação emocional influenciou as decisões da vítima.

Conclusão

Nem todo match é golpe. Nem toda pessoa intensa é golpista. Nem toda pessoa difícil é narcisista.

Mas quando um relacionamento por aplicativo começa com sedução rápida, promessas grandiosas, pressão emocional e pedidos de dinheiro, é preciso acender o alerta.

O DSM-5-TR pode ajudar a compreender traços ligados ao narcisismo, especialmente quando há exploração interpessoal e falta de empatia. Mas, juridicamente, o mais importante é organizar os fatos e preservar as provas.

Porque, no fim, o problema não é apenas ter acreditado em alguém.

O problema é quando alguém transforma confiança em ferramenta para causar prejuízo.

Como um advogado pode ajudar?

A atuação jurídica em casos de golpe afetivo ou prejuízo financeiro em relacionamento vai muito além do ajuizamento de uma ação.

O advogado pode auxiliar na análise das provas, na identificação das medidas cabíveis, na definição da melhor estratégia jurídica e no acompanhamento dos procedimentos necessários para a defesa dos interesses da vítima.

A orientação jurídica é especialmente importante quando houve transferência de dinheiro, empréstimos, compras, uso de cartão, promessa de devolução, pedido de segredo, ameaça, perseguição, exposição ou qualquer prejuízo ligado ao relacionamento.

Também é recomendável buscar ajuda quando a pessoa tenta convencer a vítima a apagar conversas, desistir de cobranças, não procurar orientação profissional ou aceitar apenas uma promessa verbal de pagamento.

Nesses casos, agir com rapidez pode ajudar a preservar provas, evitar novos prejuízos e impedir que a manipulação continue. Como cada situação possui características próprias, a avaliação individualizada é fundamental para identificar os caminhos jurídicos mais adequados.

Conteúdo informativo e multidisciplinar

Este conteúdo não substitui uma avaliação individualizada. A análise adequada depende das circunstâncias de cada caso e da área profissional envolvida, devendo ser realizada, conforme a situação, por advogado, psicólogo, psicanalista, psiquiatra, médico, terapeuta ou outro profissional devidamente habilitado.

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